Dia do soldado

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Nos anos de chumbo, quando cidadãos desapareciam do nosso convívio, o milagre brasileiro (vendido pela Globo) fazia nossa gasolina não subir enquanto havia uma crise mundial do petróleo que fez o preço do barril disparar.

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Naquele período, tribunais militares julgavam, com suas próprias regras, civis considerados subversivos ou que fossem considerados uma ameaça para a ordem estabelecida. Os critérios eram baseados no humor do general.

Os bancos privados, financiadores do golpe de 1964 (primeiro de abril), lucravam horrores com seus papéis podres e seus ganhos com inflação que impedia qualquer cidadão brasileiro de baixa renda pensar em ter onde morar, algo que fosse seu.

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“Julgaram” inúmeros resistentes que não concordavam com o regime de exceção que foi instaurado a partir de 64, mas que teve seu auge em 1969 com o AI-5, urdido na mente de Jarbas Passarinho, que morreu recentemente, sem deixar saudades, pelo contrário, a exemplo de João Havelange, adiou uma morte desejada por muitos brasileiros que tiveram parentes torturados e mortos.

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Dentre os que passaram por sessões de agressões físicas e psicológicas, a atual presidente da República Federativa do Brasil, Dilma Roussef.

Veja quem cobre o rosto.

Amanhã, 25 de agosto de 2016, o julgamento do golpe, sem provas, sem crime, acontece dentro do Senado Federal. Sentados na condição de acusadores, senadores que estão envolvidos em escândalos de corrupção, figuras notórias da política baixa brasileira.

Na presidência do julgamento midiático, Ricardo Lewandowski, que enganou boa parte dos brasileiros com sua aparente postura ética, mas que se derreteu ao levantar a bandeira dos 41% de reajuste para o judiciário, vetado por Dilma Roussef.

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Cunha, Aécio, Jucá, Temer, Serra e toda a cúpula do PMDB e PSDB estão sendo investigados por terem sido delatados pelos empresários presos na Operação Lava Jato, mas Lewandowski não se importa com isto, tem de seguir o roteiro do golpe, faz parte dele, atua ativamente na deposição de uma cidadã eleita democraticamente pela maioria dos eleitores, cinquenta e quatro milhões de votos.

Cantanhêde, Azevedo, Merval, Jabor, Waack, Leitão e muitos outros “astros” da Globo, já preparam o espumante e o caviar, para comemorar com Moro e Janot, que se auto-proclamaram arautos da moral e bons costumes, paladinos contra a corrupção.

O que virá, após o linchamento de amanhã, é incerto.
Como incerto é o destino de milhões de brasileiros que gritaram Fora Dilma, Fora PT, robotizados e tendo como guias: um ator pornô, um adolescente financiado pelo Koch Brothers, um nazista e uma enorme estrutura de arrecadação de dízimos que loteia pedaços do céu, tudo em nome de um ser superior, pois eles são os “escolhidos”.

Se Dilma tem um grande defeito, é de não ter a capacidade de articulação de seu antecessor, não por timidez, mas por ter uma formação burocrata. Isolou Temer, agora é removida do cargo pelo exemplo extremo da mediocridade e falta de caráter.

Trouxe Levy, engenheiro naval, doutor em economia, da escola de Chicago, ex-FMI, agora é levada por Lewandowski ao cadafalso.

Acreditou que o PMDB havia lhe dado respaldo para o segundo mandato, mas foi exatamente o partido que lhe fechou as portas no Congresso, liderados pelo maior pulha da história deste país: Eduardo Cunha (que será absolvido em breve e retornará triunfante, com seus parlamentares no bolso).

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Aprendida a lição, para a esquerda brasileira, que não se negocia com sociedade secreta, grupos religiosos fundamentalistas, com partidos conhecidos exclusivamente por pautas corporativistas, nem se cria tucano perto da comida, não se pode confiar em pessoas indicadas ao mais alto cargo do judiciário, pois uma vez que lá chegam, assumem a máscara que o capital lhes determinar.

Chega ao fim a lava jato, o país construído em uma década, ajoelha-se aos grupos de investimento internacionais (especuladores), sem prisões de corruptos, com o ocaso do PT (coligado com os golpistas em muitos municípios com a desculpa que é assim mesmo que “as coisas funcionam”).

Um problema que ficou: as retiradas de direitos de trabalhadores, criminalização de movimentos sociais e a transformação de sindicatos em jardins de infância, não vão parar por aí, dezembro tem a segunda etapa do pacote de maldades e endurecimento do regime.

Não vejo reação, além de corajosos manifestantes em pequeno número encarando as ruas e a truculência da polícia política.

Como este país é de verdade, não vai ser com debates no mundo virtual que o jogo vai ser virado, visto que apear esta turba do poder não vai ser fácil, nem institucionalmente, pois temos o mastodôntico Gilmar “Dantas” Mendes de cão de guarda dos interesses dos bandidos, nem através de ações de resistência.

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54 milhões de cidadãos não desaparecem de um dia para o outro, mas é o que parece que aconteceu.

Um julgamento político, no dia do soldado, para agradar a mídia e o capital.

Uma cidadã “enforcada”, mas quem vai bancar a conta da árvore, corda e banquinho, é o país dos que trabalham e fazem a economia girar. Os da carteira assinada, férias, 13º e com imposto retido na fonte. Direitos que os sindicatos alardearam estar em perigo, mas permaneceram nas suas sedes, fazendo um pouco de ação publicitária e panfletária, não foram no coração das massas.

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O tempo passou e agora vai ficar parado por décadas.

Era uma vez…


Ilustração: Millôr Fernandes

Um grupo (só) de homens de “bens” reunia-se em um “estabelecimento”, por obrigação e determinação da “irmandade”.

Usavam trajes característicos, lembrando o período do império, muita pompa e circunstância.

Os mais antigos determinavam as pautas das reuniões, seguindo toda a liturgia milenar.

Dentre eles, um progressista, tinha chegado ali por conta de um tio que era da “irmandade”, por pedido da família, precisava de um “bom encaminhamento”, pois tinha ideias muito “modernas para a época”. Muito jovem, ouvia muito, nunca falava. Seguia as orientações, ainda que, por consciência, discordasse da forma como a estrutura funcionava, baseada em troca de favores entre os “irmãos”.

Logo percebeu que não existia avaliação de caráter, ética ou intelectual para favorecer A ou B, bastava ter ido parar ali por indicação de um membro.

Com o tempo, notou que além de fidelidade, se cobrava sigilo, este o maior bem da “irmandade”. Uma vez quebrados um destes dois “pilares”, coisas estranhas aconteciam com os “infratores infiéis”.

Dentro de um mesmo município, existiam inúmeros “estabelecimentos” com “figuras de alta patente” responsáveis pelos membros e ações determinadas pelos escalões superiores.

Atuavam em todas as áreas: política, economia, relações internacionais, instituições do comércio e indústria.

Sempre que uma conversa informal citava uma das instituições, vinham as  perguntas: tem “algum dos nossos” lá ?  Quem comanda as operações da “irmandade” naquela área ?

Mesmo que fosse em algum cargo de menor importância, o “irmão” era posicionado para obter informações privilegiadas.

Ingenuamente, na década de setenta desta história ficcional, os jornalistas apelidavam os “irmãos” com funções absolutamente injustificadas para a finalidade da instituição como ASMENES e ASPONES. Figuras que apenas recebiam salário, não executavam qualquer tarefa visível.

Lembrando outra organização dos livros de Ian Fleming, a Spectre, agiam de forma subterrânea, mas sempre conseguiam atingir suas metas mais ousadas.

O progressista, auxiliar de assistente do estagiário de coisa alguma, mudou seu pensamento e evoluiu, percebeu que era um títere que seria “controlado” para que não aplicasse as ideias “avançadas” para qualquer época. Com isto, mesmo no período de graduação, quando foi presidente de diretório estudantil, não conseguia organizar o movimento estudantil, já que ao tentar pensar ou criar formas de atuação, havia conflito de interesses com a “irmandade” e o medo de “decepcionar” os “irmãos” era maior que a determinação adolescente de partir para a luta por direitos, conquistas e justiça social.

Chegou a usar a palavra “cota” em uma das reuniões semanais, após segundos de silêncio constrangedor, os “irmãos” explodiram em sonora gargalhada, tomando a provocação como uma brincadeira adolescente. O tio já não lhe dava mais atenção, apenas quando era necessária a admoestação discreta e eficiente, caso insistisse em “começar a pensar por conta própria”.

Raras as vezes que os assuntos das reuniões da “irmandade” extrapolavam temas municipais, mas agora havia uma determinação do “grande pensador”. Estamos em desacordo com a principal mandatária do país, os “irmãos” não a querem mais.

Dentro da mídia, também há a salinha da “irmandade” que ajusta pautas e descreve sucintamente qual a linha editorial valerá para o dia.

Alguns são neoliberais, outros conservadores e há a ala ainda mais conservadora, deixando o progressista, promovido a estagiário, completamente perdido.

Com os “irmãos” em cargos chaves e em posições estratégicas, basta fazer acordos com a “irmandade” dos fundamentalistas do Congresso Nacional para executar o planejado.

Em universidades públicas, são eleitos reitores “irmãos”, preservando a mentalidade de que só é bom o que é privado, já apresentando palestras de como será o país pós-ações “corretivas”.

Ministros “irmãos”, interino “grande-irmão”, mídia de “irmãos”, congresso de “irmãos”, políticos progressistas “irmãos”.

Com esta “fraternidade”, decidiram acabar com o futuro de um país.

Ainda bem que nem todos os membros do STF, último bastião da justiça, são da irmandade, do contrário, estaríamos condenados.

Este texto é uma ficção, só existe na minha cabeça, não há nada que esteja associado com nossa dura realidade política.

O “progressista”, se converteu, agora era um reacionário de alta linhagem. Que orgulho para a “família”!

Assim viveram, todos os que não foram citados, “infelizes” para sempre.

Está feito o estrago

Já lá se vão cinquenta e um anos do primeiro de abril de 1964.

Naquele tempo, nada de internet, a comunicação se dava, basicamente, pelo papel impresso ou rádio AM.

Cada discurso ouvido no rádio fazia o cidadão ter sua imaginação estimulada de como seria a face do governante, quem seria o grupo que tomou de assalto Brasília com tanques e se espalhou pelo país.

Marchas, protestos e a “ameaça” que João Goulart fizesse as prometidas mudanças sociais que o brasileiro precisava, não as impostas por empresários e banqueiros, apoiados por generais, mas o da reforma agrária, do desenvolvimento do país com distribuição de rende. Foi derrubado, exilou-se. Tudo narrado nas rádios, a maioria pró-golpe, afinal pertenciam às famílias que haviam financiado a ação de tomada do poder no braço, com o apoio estratégico dos EUA (isto é história, documentado e revelado, não é teoria da conspiração).

Cinco anos após, este governo totalitário que dissolveu o Congresso Nacional, retirou direitos civis e estabeleceu um regime de terror com os que não se alinhavam ao regime, foi decretado o AI-5.

Intensificaram os trabalhos de tortura para garantir que ninguém trama-se contra o governo dos militares (banqueiros na realidade), muitas famílias de brasileiros honrados foram desfeitas e seus membros assassinados nos porões do DOI-CODI.

Serra fugiu vestido de mulher. Agora é o ministro biônico das Relações Exteriores (com os EUA apenas).

Anos setenta, o tal “milagre brasileiro” maquiou indicadores econômicos, falsamente mostrando um país do “futuro” (que país é este ?)

Anistia do Geisel, o general bonzinho, seguido pelo general dos cavalos, frustração com diretas já, Tancredo, Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma.

Em 2016, ano que deveria haver maturidade democrática, direitos garantidos pela Constituição Federal, mas não foi bem assim, o poder foi tomado pelo grupo que fingia ser contra a corrupção, mas eles eram os atores do filme que criticavam, o diretor e produtor também eram da gangue.

Impedimento patrocinado pelo interesse do capital internacional, movimentos reacionários alimentados pelo Koch Brothers, financiadores conhecidos de ditaduras de direita, mídia assumidamente de direita faz um trabalho incansável de desconstrução (tive de usar o termo) de um governo popular, legitimamente eleito e tornado o demônio culpado por “tudo que está aí”.

Assumido o caráter do golpe e seu maior objetivo: destruir a carreira política do Lula, derrubar a presidente eleita e jogar sal sobre o que sobrou do PT.

No dia seguinte: um ministério oposto ao que se chamaria de honesto.

Brasília foi tomada de assalto. Ministérios voltaram a ser latifúndios e seus chefes são donos do patrimônio público.

Tudo que se refira a garantias individuais, direitos humanos, combate ao racismo, pobreza e homofobia, deixam de ser prioridade e as pastas sumariamente extintas.

Um porta de cadeia legítimo, do PCC e do Cunha, está ministro da justiça.

Se este cenário não o assustou, pare de ler este tipo de texto, seu cérebro fritou e não há cura.

Definitivamente, nosso país não é para amadores.

Ex

O prefixo EX tomou proporções enormes desde a década de setenta, em todos os aspectos da vida.
Com a legislação que permitiu o divórcio no país, ex-esposa (na época era ex-mulher, como se fosse uma condição de gênero) e ex-marido passaram a constar do vocabulário, dos contos e crônicas (aquela do Veríssimo sobre o tipo de mulher que ele gostava é impagável), do cotidiano.
Expressões associadas à forma pejorativa, desembocavam a culpa de tudo de errado que ocorrera, a(o) EX.
Ex-viciado, ex-alcoólico (alcoólatra), ex-patrão, ex-rico, ex-prefeito, ex-governador, ex-presidente (em voga na mídia), ex-senador, ex-amante (opa), ex-jogador, ex-membro (de banda), ex-o que quiser.
Duas letras que encerram ciclos, determinam banimento, estabelecem novas relações ou destroem antigas. Um prefixo excludente, feito para dar ênfase ao que não é mais.
Normal ler que alguém deixou de lado o caráter e passou a praticar atos criminosos, tornou-se ex-homem-de-bem!
Mas quando ele deixou de ser “de-bem”, libertou-se também da obrigação de fazer tudo certo, mesmo que seja um ato medíocre como soltar um palavrão entre pessoas de educação “elevada”, sem constrangimento, pois não há mais reputação ou preocupação.
Quando me torno EX, não sou mais.
Ex-cunhado (a), leva a condição de agregado consigo, mas deixa a relação dos sobrinhos, estes nunca receberão sufixo.
Pai e mãe são inamovíveis, como irmãos.
De um extremo ao outro, os amigos. Uns vem, outros vão.
Em conversa descontraída, um amigo, me perguntava de um ex-amigo.
Não, não é invenção do PT ou Facebook, ex-amigos são parte de nossa vida, até quando não queremos.
Diferente de uma “punição” virtual com o bloqueio, laços de amizade são rompidos e/ou perdidos de forma definitiva, visto que “amigos” do Facebook podem ser desbloqueados a qualquer tempo, no entanto, amigos que partem podem estar dando o último adeus, último olhar e gesto de cumplicidade.

Fim do ciclo.

Ausência

Determinados eventos são marcados por homenagens justas aos ausentes.

Além da gratidão, um resgate da obra de uma vida, do valor de um ser humano, da grandeza de pensamentos e atos.

Certas ausências são muito sentidas, seja pela perda recente ou importância afetiva.

Fazendo um paralelo com a literatura, algumas figuras insubstituíveis são como livros clássicos, atemporais. Extrapolam suas vidas com marcas indeléveis.

Nos cabe organizar a enorme biblioteca de nossas vidas, tratando de ler cada um dos ícones, com a profundidade e sensibilidade que o momento de cruzarmos as existências nos da. Raramente são longos.

Transmitir nossa experiência aos herdeiros, não tem o mesmo sabor, textura e vivência, mas preserva o pouco que ficou equilibrado entre a memória e o completo esquecimento.

Eis o desafio: administrar bem os encontros com pessoas que mudam nossas vidas, nem bons, nem ruins, apenas marcantes.

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David Gilmour – O show – parte três

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Ainda dia claro, uma banda que não conheço (culpa da minha falta de interesse por bandas brasileiras mais recentes) tocava suas composições. Era um trio. Percebi que algumas pessoas ao redor cantavam as músicas mas, sinceramente, não fazia a menor ideia, muito menos reconheci um refrão sequer. Um trio, baixo, guitarra e bateria.
Bastava o vocalista se apresentar ou a banda, teríamos alguma referência, mas ele parecia estar mais embasbacado de abrir o show do Gilmour do que lembrar que tinha um público potencial bem a sua frente.

Aumenta o contraste do céu com a lua, cada vez mais branca e nítida.
Ao contrário de outros shows, neste momento a adrenalina deveria estar causando algum tipo de aumento na ansiedade, uma sensação de estar em um lugar muito estranho, diferente. Mas não foi isto que senti.
Olhei para a Jô várias vezes, percebendo que ela não estava ansiosa, como de costume, mas alegre como uma criança que vai participar de uma grande brincadeira.

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Apagam-se as luzes do estádio.

Aplausos explodem, eis o homem.

Primeiros acordes, começa Rattle that lock, um pouco diferente da versão de estúdio, mas nem sua lentidão e aparente falta de punch parecem tirar o brilho do guitarrista do Pink Floyd.
Estamos todos boquiabertos e eu tentava conseguir algum foco na máquina, pois a distância era considerável e abusar do zoom e ISO iriam comprometer a qualidade da foto e, pelo menos desta vez, eu queria ter fotos legais.

Na fileira de trás, dois caras novos não calavam a boca, empolgados com a guitarra que ele usava, com os timbres, com todos os detalhes do som.

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Na frente, infelizmente, um pessoal pouco preocupado com os que estavam atrás, se postaram de pé e, apesar de inúmeros apelos, um deles chegou a se irritar e não desistiu de apoiar-se no vidro que separava a cadeira do gramado.

Hora de ser maduro e raciocinar que tocar um calçado nas costas dele daria uma sensação muito boa, mas iria começar um tumulto que me tiraria do show pelo qual esperei minha vida inteira.

Quando as vozes gravadas deixaram claro que iria tocar Wish you were here, os celulares foram ligados nas arquibancadas e o estádio iluminou-se suavemente, mudando o estado de euforia máximo pela execução da música que marcou muita gente, para mim tem um significado especial, pois foi a música que minha esposa tocava para mim no violão e cantava, logo que nos conhecemos. Como não me apaixonar ?

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Estávamos ali, segurando as câmeras, celulares e nos entreolhando com a trilha sonora de nossas vidas sendo executada pelo cara que a concebeu.  Me senti o cara e o primeiro arrepio veio.
Meus pelos do braço levantaram e eu não imaginava que, com cinquenta anos, um show mexeria com meus sentimentos daquela forma. Muito forte.
Se havia alguma forma de declarar amor, estava acontecendo com aquela música, lua, energia silenciosa que nos fazia ouvir e sentir os acordes.
Todos cantavam, como se tivesse sido escrita em português, com intimidade, com a cumplicidade de quem amava aquela canção tocada em um violão.

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Gilmour aproveita para tocar músicas que não são tão conhecidas, repertório que, como questionou o Gastão Moreira na entrevista coletiva de São Paulo sobre ele nunca tocar nada dos dois primeiros discos. Mas é sempre aplaudido.

A primeira parte do show passou voando.
Gilmour avisa que são quinze minutos de intervalo. As luzes acendem e podemos vislumbrar os sorrisos, abraços e lágrimas dos que estão na pista.

Importante haver este tempo para tomar um ar, lembrar que está acontecendo de verdade. Olho para o céu, lá está a lua. Tudo muito calmo. Não fui no The Wall do Roger Waters, mas creio que era um evento completamente distinto.

Percebemos quer éramos os únicos naquele espaço que estávamos vendo pela primeira vez, pois uma rápida conversa com os que nos cercavam comentavam sobre as diferenças que perceberam em São Paulo e Curitiba.

Luzes desligadas. Começa Arnold Layne, música que projetou o Pink Floyd no cenário psicodélico dos anos sessenta e que era de autoria do guitarrista e vocalista Syd Barrett. Ao contrário do que muitos pensam, Barrett e Gilmour eram amigos e conviveram nos arredores de Londres durante algum tempo, com a contribuição do segundo no álbum solo, na produção. Gilmour cantou como se fosse dele.

Quando o telão mostra um mapa da América do Sul, a galera delira.

Coming back to life quase colocou o estádio abaixo. Uma reação muito mais forte que em outras músicas do Floyd.

Money causou também. Com o brasileiro João Mello fazendo trabalho de saxofone que, normalmente, seria feito pelo mesmo que tocou em Dark Side of the Moon, Dick Parry.
Na entrevista coletiva, Gilmour rasgou elogios ao garoto, mas não estava sendo apenas gentil, o curitibano mandou muito bem, seguro e conhece do riscado. De quebra, apareceu tocando violão.

Nas músicas do The Wall, quase sempre tinha o vocal do multi-instrumentista Jon Carin.

High hopes. Meu segundo momento de arrepios e emoção.
Uma música que falava em grandes expectativas, cujo clipe era emblemático, tratando de tudo o que carregamos na vida com a esperança que é merecido o sacrifício, mas também que somos exagerados em algumas apostas. O sino do início já criou o clima necessário para a entrada do vocal de timbre grave (raro) do Gilmour. No solo, não teve quem ficou calado. Braços erguidos e delírio. O gurizão que estava na fileira acima bradava: filha da puta ! filha da puta! (não no sentido pejorativo, mas por não saber como expressar tanta alegria)

O show poderia acabar logo após High Hopes, minha missão estava cumprida.

Eis que o Gilmour se despediu, mas não havia tocado Time, Run Like Hell e Comfortably Numb. Era como dizer que o mocinho do filme havia morrido de verdade. Conta outra.

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Voltou com os sons dos relógios que o Alan Parsons captou na relojoaria próximo aos estúdios Abbey Road no início de 1973.
Tentando imitar o Waters, Guy Pratt dedilhava o baixo para marcar o que seria o som da batida do relógio…
Começa
“…Ticking away the moments that make up a dull day
Fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way.
Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.”
Começa o solo de guitarra que tantos ouviram no vinil, num toca-discos mono da década de setenta e ainda assim ficávamos de queixo caído, marcado pelo chimbal de forma visceral.
Parece impossível, mas o público estava ainda mais empolgado, como se tivesse acordado de um sonho dentro de outro melhor ainda.
Run Like Hell, luzes, som, tudo maravilhoso.
Ouvindo a versão do filme do Waters, posso dizer que a versão do Gilmour sempre vai ser melhor, até porque o baterista dele é muito bom.  Phil Manzanera, companheiro de Gilmour de décadas, foi fundamental.
Para fechar com perfeição, a melhor de todas, Comfortably Numb com solos generosos e novamente tenho o corpo tomado por sensações indescritíveis. Dizem que depois de uma certa idade é tesão, mas creio que foi algo ainda melhor, tântrico.

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Duas horas e meia de show. Extasiados. A banda e nós.

David Gilmour – parte dois

Chegamos na rampa de acesso, confirmado que era ali que subiríamos ao portão correto.
Uma grande confusão, pois não havia uma fila, buscamos o final dela, mas era só um amontoado de fãs, sob a sombra da rampa, num calor estranho após tantos meses de chuva.
Gente de todas as idades, mas a maioria já batia na casa dos quarenta, o que me deixou mais tranquilo.

Começa o coro de “abre, abre, abre,,,”

Depois de meia-hora de atraso da prometida liberação para dezessete horas, eis que começa o processo de revista e liberação, com os primeiros dando gritos e fazendo selfies na rampa.
Mochila com capa de chuva, duas câmeras e a revista foi bem light, algo como, tudo bem, pode passar.
Deixei minha câmera boa no hotel, bem como a filmadora, arrependimento misturado com felicidade de subir a rampa.

Primeira falha da organização, poucas pessoas para dar informações, com camisetas verdes que diziam: posso ajudá-lo ?
Foram treinados mais para dizer “não sei, mas não é aqui” do que “siga naquela direção até o portão do seu ingresso”.

Como um velho hábito, tivemos de procurar fim da fila dos portões K M ou O, com a dúvida se meia-entrada seria no mesmo portão, mas isto um camisa verde nos informou que não teria diferença.

Paramos na fila M, mas ela parecia interminável, ainda que utilizava a lógica de ir até o extremo do muro, depois noventa graus para continuar.
Curioso, pedi à minha esposa que ficasse na fila que iria ver como estavam as outras.
Maravilha a fila O estava muito menor, apesar de estar fazendo um caracol que se fechava, como o da quadrilha da festa junina…
Mudamos de fila.
Com toda a provável confusão que iria acontecer, pois duas filas que iriam para o mesmo portão ficaram em paralelo, bastando que um distraído desse um passo fora do demarcado, para que a mesclagem inevitável acontecesse. E aconteceu.
Alguns perceberam que um grupo que chegou bem depois, estava na fila muito a frente. Houve uns gritos de “sacanagem”, “bagunça”, “só no Brasil”, “este é o Brasil”,…
Aos que estavam ao meu lado, sugeri: pagamos caro, estamos entrando, logo estaremos acomodados, vamos colaborar uns com os outros ao invés de nos revoltarmos com a falta de organização aqui fora. A maioria entendeu, mas um abobado abriu os braços, inclusive empurrando minha esposa para trás e disse: ninguém vai passar na minha frente!
Todos olharam para ele e, com pena, deixaram ele viver aquele momento fantasioso de controle da fila.
Na catraca uma simpática atendente nos recebeu com um sorriso, conferiu os ingressos e desejou um excelente show.

Lá dentro, o deslumbre de um estádio bonito e novo, banheiros com fácil acesso, fila de novo para o caixa, mas as cadeiras nos aguardavam com liberdade para escolher o melhor ângulo de visão.
Tentei acessar a área do gramado (pista), conversando com o segurança, para tentar uma foto de frente do palco, mas não tive argumentação suficiente para convencê-lo, bem como destaco que ele foi extremamente polido.

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Sentamos na área leste, ou seja, com o sol nos acertando em cheio, mas quem disse que isto era um problema ?
Tradicionais avaliações de quais lugares seriam melhores da próxima vez, visto que o telão ficava bloqueado pelo pano preto do palco, mas até a bateria estava completamente visível. Lamentei que o Jon Carin ficou oculto, só o vi pelo telão, quando cantou.
Fim de tarde belíssimo, temperatura agradável, o calor deu lugar a uma aragem perfeita e, ela, a lua se apresentava para dar um ar ainda mais belo à noite que se avizinhava.

Duas fatias de pizza e muita água para esperar por mais duas horas e meia.

Fotos, busca inútil por conhecidos nas arquibancadas.

Estávamos feito duas crianças que haviam esperado muito para ver um show com mais uma parte da trilha sonora de nossa vida.

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