Listas

The Bucket List é um baita filme, não apenas pelo elenco, Morgan Freeman e Jack Nicholson dispensam apresentações. Numa história bem amarrada, surge uma lista de coisas para fazer antes de morrer, estranhamente, o título em português virou “Antes de partir”.

Quem não tem idade para começar a pensar na “partida”, acaba por se divertir com o humor ácido do filme e se apaixona por personagens que não parecem ter saído de um livro infantil, um milionário e um aposentado.

Mas quem, de alguma forma, estabeleceu uma relação de viver com a expectativa de vida da localidade, cede aos pensamentos dos desencantos estatísticos.

Tem quem nunca amou de verdade.

Tem quem jamais deu um mergulho numa praia de mar grosso (aberto).

Tem os que não saíram do país.

Os que não jogaram taco.

Quase que esqueço os que nunca se entregaram desavergonhadamente à dança.

Os que não falaram alto.

Tem gente que nunca pisou num cinema.

Os que nunca ouviram rock progressivo em um aparelho de som decente.

Aqueles que não conhecem uma roda de capoeira.

Não andaram de trem.

Não olharam para o céu numa noite estrelada.

Nunca se deixou fotografar ou fotografou.

Entre sair do lugar mais legal e aconchegante, até o momento de partir, tem a vida e ela é o conjunto de nossos atos.

Simples assim.

Tecnologia e os filhos

Quem orbita pela minha faixa etária (50+), teve horário para ver TV, que era a única da casa ou era no vizinho. Os que estudavam no período vespertino, não assistiam, pois os pais definiam o horário da programação em consonância com o que poderíamos assistir sem ficar boiando no tema, se fosse história para adulto, nem questionamento poderia haver.

Crianças não assistiam noticiários, novelas ou entrevistas, lhes era reservado os desenhos e seriados (com dez anos de atraso em relação à produção), lembrando que as repetidoras só iniciavam a transmissão três horas da tarde e não havia programação após a meia-noite.

Tínhamos o início da noite para fazer os deveres (tarefas de casa) e dormir antes das nove. Sem choro.

Frase comum daquela época:

“Vai mijar para dormir”.

Sábado tinha programa de rock na TV, que só existia aberta aqui no Brasil, ELP, Deep Purple, Johnny Winter, Rolling Stones, etc., em preto e branco e som abafado, mono, é claro. No final da tarde de sábado tinha festival John Wayne (quase todos os filmes tinha o Lee Marvin como o bêbado da localidade, passava o dia de ceroulas) e depois a Globo mudou para Festival Frank Sinatra, já na década de oitenta, em cores.

Ninguém que tivesse menos de dezoito anos trocava da canal, pois o adulto presente determinava qual o programa do dia e “os pequenos” tinham de aceitar.

Havia uma página do jornal O Estado que trazia a programação dos dois canais disponíveis: Tupi (maior audiência) e a Globo. Saber o que passaria no final de semana, só assistindo a propaganda.

Por este motivo o cinema era tão atraente, afinal, aquele telão enorme, a possibilidade de ir para um lugar escuro, uns para namorar, outros para poder falar merda sem que os maiores descobrissem de quem era a voz disfarçada. Lanterninha para garantir que ninguém assistisse o filme com os pés apoiados no encosto da cadeira da frente. Cadeiras de madeira, desconfortáveis e terrivelmente desenhadas para crianças. Pipoca só do carrinho que parava na frente do cinema. A bomboniere vendia mentos, frutella, supra-sumo, bibs e confeti. Nada de bebida.

O som era pior que o da TV, mesmo com uma potência imensamente maior, era mais abafado ainda. Se fosse filme nacional, era impossível de entender um diálogo.

Ninguém gostava de sentar nas primeiras fileiras, pois era praticamente impossível de enxergar o filme, borrado pela baixa resolução, bem como ângulo de projeção favorecia da metade para trás da sala.

O computador seria uma realidade vinte anos depois, ainda assim, não dava para assistir filmes nele, nem eram coloridos.

Para os que tem menos de vinte anos, parece um relato do período pré-jurássico, mas só sei que era assim.

Os EUA e nós

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Venceu o bilionário.

Para não haver interpretação inversa, o considero uma das figuras mais abjetas e ignorantes.

Com uma cobertura séria e engajada por parte do jornalista investigativo Greg Palast, muitos votos foram descartados nos cantões mais conservadores pela origem étnica por qualquer desculpa pelos fiscais de urna. Esta denúncia vem sendo veiculada na internet, pois a mídia não da espaço ao que não lhe interessa, ainda que seja a verdade. Na maior democracia do planeta, os votos de negros e pobres é descartado, não é obrigatório, muito menos direto.

Clinton, enquanto agiu como Secretária de Estado de Barack Obama, ordenou muitos massacres em países que foram invadidos por não se alinharem com os interesses econômicos estadunidenses ou, pior, para trazer o cenário de democracia, mas de forma ostensiva, com bombardeios em áreas civis. Uma dessas áreas, claramente identificadas em documentos enviados à ONU e embaixadas, foram instalações do Médico Sem Fronteiras. Uma foto aérea provou que nada ao redor foi afetado, apenas esta estrutura que da algum apoio médico em áreas de conflito.

Ela sofreu pesada crítica após a inundação de informações sobre e-mails trocado com corporações que a financiaram na campanha à Casa Branca. Parte da mídia ultra-conservadora não perdoou e, sem admitir que as denúncias partiram do Wikileaks, miraram os dedos para a candidata.

Bernard Sanders, por ser do mesmo partido, o Democrata, teve de apoiá-la, mas não jogou a toalha quando o tema envolvia o interesse do grande capital, como é o caso da Monsanto, agora unida à Bayer.

Ela preferiu continuar azeitando suas relações nada publicáveis com as estruturas de poder, com as bençãos da Suprema Corte que decidiu que não há limite para o financiamento de campanhas por parte de corporações, ainda que seja uma clara orientação de interesses, oficializando a estrutura lobista.

Ela mandou espionar Dilma e Angela. Aqui a presidente foi derrubada, lá não aconteceu o mesmo, pois a União Europeia não permitiu.

Durante os dois mandatos de Obama, Clinton foi figura mais que escrutinada, pois todos sabiam que seria a candidata natural para suceder o primeiro presidente negro.

Temos um mundo que se torna mais conservador, homofóbico, misógino, xenofóbico, fundamentalista e racista, pois não seria os EUA a fugir da curva e se omitiria de ser o líder deste processo que atira o mundo no cenário medieval.

Teremos o muro prometido pelo empresário, mais conflitos em áreas petrolíferas, menos no Brasil, afinal, aqui o Serra entrega de bandeja, basta acenar-lhe com a gorjeta e depositá-la na Suíça.

Em resumo, o dinheiro do Trump, somado ao dos Koch Brothers, definiu o que o mundo capitalista será nos próximos anos.

Com Clinton ou Trump, os EUA meteriam seus dentes nas áreas de interesse geopolítico, a diferença é que a primeira nunca defendeu o interesse dos cidadãos e tentou esconder a outra face, o segundo sempre falou demais, sofre de sinceridade que o expõe, mas ele é bilionário, não está nem aí para o que o resto do mundo pensa.

Uma conta que ninguém quer pagar

“Patridiotas”, empunharam bandeiras e bradaram lemas centenários criados nas mentes mais conservadoras do século passado.

Imbuídos de falso civismo, incorporam o nacionalismo como algo positivo e tomaram os espaços públicos trajados de verde e amarelo, supostamente, as cores de destaque da bandeira brasileira, mas ouvem líderes “apolíticos” que vomitam a cartilha dos conservadores estadunidenses, mais especificamente, a mesma que tomou os conselhos de educação de cidades pequenas do interior dos EUA, propondo escolas mais “seletivas” e mudanças de locais de escolas, deixando os de baixa renda no mesmo grupo social e alterando regras para limitar o acesso aos que detém poder aquisitivo maior.

Lá houve reação, começou nas escolas, com os estudantes, professores e pais, engajados, mudaram os conselhos de educação (que são eleitos) e detectaram a presença de membros orientados pelos Koch Brothers.

Lá, como cá, a imprensa não deu o devido destaque para uma fantástica reação popular, algo inesperado na “maior democracia do mundo”, supondo que a liberdade de imprensa seria uma característica mínima ao jornalismo de primeiro-mundo.

Uma tresloucada com uma bíblia na mão e uma imagem esculpida se apresentou como “salvadora da pátria” e se “desculpou” com a representante do voto de 2014, alegando estar “garantindo o futuro do país” com uma das peças jurídicas mais medíocres já apresentadas em uma farsa transmitida ao vivo pela maior rede de comunicação privada, que se utiliza de uma concessão pública, para manipular a opinião de seus telespectadores crédulos.

Desmascarada, inclusive pelos poucos jornalistas sérios que sobraram nas redações dos jornalões, segue despejando asneiras nas redes sociais, ganhando prestígio como o juiz da “república do Paraná”.

Kassab, aquele que, restrito ao circo político de SP, era duro crítico do governo Lula, criou um partido “novo” com velhos do PFL/DEM, espalhou assinaturas de adesão falsas, também denunciadas, mas ignoradas pela grande mídia, suicidou o próprio organizador das “contas do partido” que surgia. Assumiu ministério no governo Dilma, após o “novo” PSD aderir à base do governo. Empregou os “amigos”, distribuiu verba para os “chegados”, enfim, locupletou-se como porco na lama. Marina espumava, pois não conseguia assinaturas suficientes para montar a Rede (do Itaú). Iniciado o segundo mandato da Dilma, Kassab já estava na cúpula que tramou o golpe e deu todo o respaldo no Congresso para que o “novo” partido fosse peça fundamental para a farsa.

Panelas batidas para qualquer associação do nome de Lula com o que se decidiu ser crime a partir de então. Mais panelas para pronunciamentos.

O país se dividiu em nós e eles.

Consolidado o golpe e as perseguições políticas, surge a verdadeira face (muito bem conhecida no meio político) do Mordomo GOLPISTA, exigindo sacrifícios, aumentando os juros no primeiro dia de mandato interino e assim o manteve.

Apoiado de A a Z pelo tucanato, já começa a ser fritado pela Rede Globo que sabe que o Mordomo foi apenas uma peça importante para o golpe, tomando corpo o golpe dentro do golpe, alçando FHC, o “probo”, ao status de “única saída viável para a situação de caos”.

O papo do Jucá, amplamente divulgado, sobre a importância do golpe para livrar o bando da cana, foi redondamente ignorado, inclusive pelo eleitor que ainda deu voto ao PMDB e, fatalmente, ao PSDB.

Cunha é encarcerado, para acalmar os ânimos, pois foi exposto demais e já não é tão importante ao segundo turno do golpe. Mas o Dr. “Dantas” estabelece que não há motivos para mantê-lo assim (que bonito gesto de gratidão com quem o entende tão bem).

Seguem as pretensões do Jucá, impondo, além do golpe parlamentar, o parlamentarismo que elegerá o presidente da República em 2017 de forma indireta, por aquele amontoado de lixo humano que chamam de parlamentares.

O capítulo final da novela mexicana se aproxima, o horizonte o denuncia.

Seguem as ocupações de valorosos estudantes de escolas que lhes pertencem, são públicas, opondo-se à PEC 55 no Senado. De forma bandida, a mídia os coloca como problemas, quando são a solução. Reprimidos violentamente, mais silêncio do jornalismo de fachada, das redações censuradas, que despeja nas ruas profissionais que não lhe servem mais, até aqueles que foram colaboracionistas, escreveram o golpe com a palavra impeachment, nas manchetes.

Esta conta de aumentos que se seguiram ao golpe, dos que urdiram e o executaram, vai para os cofres públicos, na forma de enorme rombo de mais de 50 bilhões.

Uma resumo da nova mentalidade:

“Em discurso na abertura do encontro nacional dos magistrados estaduais, realizado nesta quinta-feira (3), o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Ricardo Lewandowski defendeu que os juízes do país não tenham vergonha de reivindicar reajustes salariais. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.”

Pergunto aos camisas amarelas: vão pagar com cartão ou dinheiro ?

Caminhos

Vivemos de opções ou da ausência delas.

Cada mudança de rumo é consequência de muitos anos de avaliação, de formação acadêmica, de desenvolvimento profissional e, principalmente, escolhas pessoais. Um verdadeiro universo de motivos, limitados por nossa capacidade de raciocínio e percepção da evolução do ambiente.

Mudança de emprego, para o momento, o assunto que traz maior preocupação ao brasileiro que não pensa ser classe média emergente, pois envolve adaptação, o que representa uma flexibilidade nem sempre disponível aos que já passaram dos quarenta. Mas o quadro político-econômico leva a crer que muitas zonas de conforto serão afetadas e que se comprometer com novos desafios não será apenas uma opção, mas a alternativa viável.

Continuar a formação acadêmica estagnada há mais de dez anos ou estabelecer um plano de certificação profissional para atualizar os conhecimentos deste mundo que gira para o passado conservador, também não é tarefa fácil, visto que as portas se fecham no ensino superior por portarias e decretos, lembrando bem o período sinistro da outra ditadura que sempre terá durado demais.

Estabelecer metas mais ousadas e uma disciplina rígida para construir estes caminhos não é apenas questão tomada de decisão, pois envolve aspectos financeiros, sociais e das relações pessoais.

Amigos e parentes que decidem alterar suas vidas por completo, mudando-se para outro país, acreditando que “a verdade está lá fora”, se afastam por mais tempo que pretendiam. Alguns não retornarão, serão cidadãos do mundo.

Trilhar novos caminhos parece inerente ao ser humano inquieto, que não se contenta com a rotina de estruturas envelhecidas, voltadas para um passado que não é mais possível. Tratando da visão das relações trabalhistas, nunca estivemos tão ameaçados de perder direitos e ter precarizada até a carga horária, uma conquista de quase um século.

Mas nada é mais doloroso que a quebra de relação com amigos e parentes que se deseja próximo. Dos dois lados há um custo emocional enorme, pois o tempo não vai diminuir a cumplicidade da boa relação. Este afastamento pode ser físico, mas também pode ser por mudança de rotina que inviabilizam o constante encontro que tanto nos aprazia.

Pelo viés religioso, alguns apostam na retomada da relação em outra vida ou em um suposto paraíso. Um espécie de prêmio de consolação.

Mas é certo que caminhos são trilhados e, raramente, são convergentes.

Suponho que o melhor é sempre viver as relações de forma honesta e sincera, porque ao chegar na encruzilhada, basta o primeiro passo.

Caminhe feliz, mas não esqueça de curtir muito a paisagem e seus personagens impagáveis.

Dia do soldado

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Nos anos de chumbo, quando cidadãos desapareciam do nosso convívio, o milagre brasileiro (vendido pela Globo) fazia nossa gasolina não subir enquanto havia uma crise mundial do petróleo que fez o preço do barril disparar.

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Naquele período, tribunais militares julgavam, com suas próprias regras, civis considerados subversivos ou que fossem considerados uma ameaça para a ordem estabelecida. Os critérios eram baseados no humor do general.

Os bancos privados, financiadores do golpe de 1964 (primeiro de abril), lucravam horrores com seus papéis podres e seus ganhos com inflação que impedia qualquer cidadão brasileiro de baixa renda pensar em ter onde morar, algo que fosse seu.

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“Julgaram” inúmeros resistentes que não concordavam com o regime de exceção que foi instaurado a partir de 64, mas que teve seu auge em 1969 com o AI-5, urdido na mente de Jarbas Passarinho, que morreu recentemente, sem deixar saudades, pelo contrário, a exemplo de João Havelange, adiou uma morte desejada por muitos brasileiros que tiveram parentes torturados e mortos.

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Dentre os que passaram por sessões de agressões físicas e psicológicas, a atual presidente da República Federativa do Brasil, Dilma Roussef.

Veja quem cobre o rosto.

Amanhã, 25 de agosto de 2016, o julgamento do golpe, sem provas, sem crime, acontece dentro do Senado Federal. Sentados na condição de acusadores, senadores que estão envolvidos em escândalos de corrupção, figuras notórias da política baixa brasileira.

Na presidência do julgamento midiático, Ricardo Lewandowski, que enganou boa parte dos brasileiros com sua aparente postura ética, mas que se derreteu ao levantar a bandeira dos 41% de reajuste para o judiciário, vetado por Dilma Roussef.

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Cunha, Aécio, Jucá, Temer, Serra e toda a cúpula do PMDB e PSDB estão sendo investigados por terem sido delatados pelos empresários presos na Operação Lava Jato, mas Lewandowski não se importa com isto, tem de seguir o roteiro do golpe, faz parte dele, atua ativamente na deposição de uma cidadã eleita democraticamente pela maioria dos eleitores, cinquenta e quatro milhões de votos.

Cantanhêde, Azevedo, Merval, Jabor, Waack, Leitão e muitos outros “astros” da Globo, já preparam o espumante e o caviar, para comemorar com Moro e Janot, que se auto-proclamaram arautos da moral e bons costumes, paladinos contra a corrupção.

O que virá, após o linchamento de amanhã, é incerto.
Como incerto é o destino de milhões de brasileiros que gritaram Fora Dilma, Fora PT, robotizados e tendo como guias: um ator pornô, um adolescente financiado pelo Koch Brothers, um nazista e uma enorme estrutura de arrecadação de dízimos que loteia pedaços do céu, tudo em nome de um ser superior, pois eles são os “escolhidos”.

Se Dilma tem um grande defeito, é de não ter a capacidade de articulação de seu antecessor, não por timidez, mas por ter uma formação burocrata. Isolou Temer, agora é removida do cargo pelo exemplo extremo da mediocridade e falta de caráter.

Trouxe Levy, engenheiro naval, doutor em economia, da escola de Chicago, ex-FMI, agora é levada por Lewandowski ao cadafalso.

Acreditou que o PMDB havia lhe dado respaldo para o segundo mandato, mas foi exatamente o partido que lhe fechou as portas no Congresso, liderados pelo maior pulha da história deste país: Eduardo Cunha (que será absolvido em breve e retornará triunfante, com seus parlamentares no bolso).

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Aprendida a lição, para a esquerda brasileira, que não se negocia com sociedade secreta, grupos religiosos fundamentalistas, com partidos conhecidos exclusivamente por pautas corporativistas, nem se cria tucano perto da comida, não se pode confiar em pessoas indicadas ao mais alto cargo do judiciário, pois uma vez que lá chegam, assumem a máscara que o capital lhes determinar.

Chega ao fim a lava jato, o país construído em uma década, ajoelha-se aos grupos de investimento internacionais (especuladores), sem prisões de corruptos, com o ocaso do PT (coligado com os golpistas em muitos municípios com a desculpa que é assim mesmo que “as coisas funcionam”).

Um problema que ficou: as retiradas de direitos de trabalhadores, criminalização de movimentos sociais e a transformação de sindicatos em jardins de infância, não vão parar por aí, dezembro tem a segunda etapa do pacote de maldades e endurecimento do regime.

Não vejo reação, além de corajosos manifestantes em pequeno número encarando as ruas e a truculência da polícia política.

Como este país é de verdade, não vai ser com debates no mundo virtual que o jogo vai ser virado, visto que apear esta turba do poder não vai ser fácil, nem institucionalmente, pois temos o mastodôntico Gilmar “Dantas” Mendes de cão de guarda dos interesses dos bandidos, nem através de ações de resistência.

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54 milhões de cidadãos não desaparecem de um dia para o outro, mas é o que parece que aconteceu.

Um julgamento político, no dia do soldado, para agradar a mídia e o capital.

Uma cidadã “enforcada”, mas quem vai bancar a conta da árvore, corda e banquinho, é o país dos que trabalham e fazem a economia girar. Os da carteira assinada, férias, 13º e com imposto retido na fonte. Direitos que os sindicatos alardearam estar em perigo, mas permaneceram nas suas sedes, fazendo um pouco de ação publicitária e panfletária, não foram no coração das massas.

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O tempo passou e agora vai ficar parado por décadas.

Era uma vez…


Ilustração: Millôr Fernandes

Um grupo (só) de homens de “bens” reunia-se em um “estabelecimento”, por obrigação e determinação da “irmandade”.

Usavam trajes característicos, lembrando o período do império, muita pompa e circunstância.

Os mais antigos determinavam as pautas das reuniões, seguindo toda a liturgia milenar.

Dentre eles, um progressista, tinha chegado ali por conta de um tio que era da “irmandade”, por pedido da família, precisava de um “bom encaminhamento”, pois tinha ideias muito “modernas para a época”. Muito jovem, ouvia muito, nunca falava. Seguia as orientações, ainda que, por consciência, discordasse da forma como a estrutura funcionava, baseada em troca de favores entre os “irmãos”.

Logo percebeu que não existia avaliação de caráter, ética ou intelectual para favorecer A ou B, bastava ter ido parar ali por indicação de um membro.

Com o tempo, notou que além de fidelidade, se cobrava sigilo, este o maior bem da “irmandade”. Uma vez quebrados um destes dois “pilares”, coisas estranhas aconteciam com os “infratores infiéis”.

Dentro de um mesmo município, existiam inúmeros “estabelecimentos” com “figuras de alta patente” responsáveis pelos membros e ações determinadas pelos escalões superiores.

Atuavam em todas as áreas: política, economia, relações internacionais, instituições do comércio e indústria.

Sempre que uma conversa informal citava uma das instituições, vinham as  perguntas: tem “algum dos nossos” lá ?  Quem comanda as operações da “irmandade” naquela área ?

Mesmo que fosse em algum cargo de menor importância, o “irmão” era posicionado para obter informações privilegiadas.

Ingenuamente, na década de setenta desta história ficcional, os jornalistas apelidavam os “irmãos” com funções absolutamente injustificadas para a finalidade da instituição como ASMENES e ASPONES. Figuras que apenas recebiam salário, não executavam qualquer tarefa visível.

Lembrando outra organização dos livros de Ian Fleming, a Spectre, agiam de forma subterrânea, mas sempre conseguiam atingir suas metas mais ousadas.

O progressista, auxiliar de assistente do estagiário de coisa alguma, mudou seu pensamento e evoluiu, percebeu que era um títere que seria “controlado” para que não aplicasse as ideias “avançadas” para qualquer época. Com isto, mesmo no período de graduação, quando foi presidente de diretório estudantil, não conseguia organizar o movimento estudantil, já que ao tentar pensar ou criar formas de atuação, havia conflito de interesses com a “irmandade” e o medo de “decepcionar” os “irmãos” era maior que a determinação adolescente de partir para a luta por direitos, conquistas e justiça social.

Chegou a usar a palavra “cota” em uma das reuniões semanais, após segundos de silêncio constrangedor, os “irmãos” explodiram em sonora gargalhada, tomando a provocação como uma brincadeira adolescente. O tio já não lhe dava mais atenção, apenas quando era necessária a admoestação discreta e eficiente, caso insistisse em “começar a pensar por conta própria”.

Raras as vezes que os assuntos das reuniões da “irmandade” extrapolavam temas municipais, mas agora havia uma determinação do “grande pensador”. Estamos em desacordo com a principal mandatária do país, os “irmãos” não a querem mais.

Dentro da mídia, também há a salinha da “irmandade” que ajusta pautas e descreve sucintamente qual a linha editorial valerá para o dia.

Alguns são neoliberais, outros conservadores e há a ala ainda mais conservadora, deixando o progressista, promovido a estagiário, completamente perdido.

Com os “irmãos” em cargos chaves e em posições estratégicas, basta fazer acordos com a “irmandade” dos fundamentalistas do Congresso Nacional para executar o planejado.

Em universidades públicas, são eleitos reitores “irmãos”, preservando a mentalidade de que só é bom o que é privado, já apresentando palestras de como será o país pós-ações “corretivas”.

Ministros “irmãos”, interino “grande-irmão”, mídia de “irmãos”, congresso de “irmãos”, políticos progressistas “irmãos”.

Com esta “fraternidade”, decidiram acabar com o futuro de um país.

Ainda bem que nem todos os membros do STF, último bastião da justiça, são da irmandade, do contrário, estaríamos condenados.

Este texto é uma ficção, só existe na minha cabeça, não há nada que esteja associado com nossa dura realidade política.

O “progressista”, se converteu, agora era um reacionário de alta linhagem. Que orgulho para a “família”!

Assim viveram, todos os que não foram citados, “infelizes” para sempre.