D. Maria

1939 – 2021

Nossos ciclos de existência biológica são inexoráveis e, por vezes, impossíveis de entendimento à luz da razão, pior ainda da emoção.

Uma vida pode ser infinita, levando em conta as variáveis limitadoras, desde condição social até o entendimento de quais são nossos limites físicos e psicológicos. Mas o tempo que nos é oferecido sobra para fazermos muito.

Para quem nasceu em 1939, viveu a Era do Rádio, das notícias ilustradas pelas bem postadas vozes de alta dramaticidade de narradores que estavam escrevendo a história da comunicação, gerou expectativa que o mundo seguia na evolução tecnológica que garantiria uma vida melhor. TV era para os abastados, não raro era obrigatória a parada em frente à vitrine para se deslumbrar com uma imagem padrão em preto e branco.

Ouvia músicas sob chiados estridentes da transmissão e dos discos de 45 RPM, selecionados cuidadosamente por locutores especializados em encantar os ouvintes, que ligavam os sonhos acordados, enquanto trabalhava duro para ter a comida na mesa, entremeados por propagandas de produtos inúteis e fúteis, mas transformados em necessidades primárias.

Revistas especializadas em ídolos da rádio, radionovelas, estrelas de cinema, vendiam a única possibilidade de contato unidirecional aos mitos criados com a conhecida estratégia de marketing de produto gestada no modelo do “new deal” estadunidense. Verdadeiras peças de colecionador, conservadas em caixas guardadas como se tesouro fossem. Uma delas foi parar nas mãos da Vanderleia, que abriu, durante o show em Florianópolis, a foto da página central para mostrar à plateia a relíquia de décadas.

Ao condensar toda a propaganda do rádio, cinema e revistas, o formato estava pronto, o produto vendido e a fã criada.

Na década do roubo da democracia, do fim dos direitos e da repressão, o mundo maravilhoso dos “artistas” vendia também a imagem de total normalidade, os festivais de música, as novelas que não abordavam o cenário político, a aparente tranquilidade de um mundo em ebulição.

Em paralelo, o trabalho na Maternidade Carmela Dutra, onde teve contato com todo o tipo de pessoa, no corpo técnico, como no setor em que aprendeu o ofício na cozinha e serviços gerais (na época chamavam de faxineira). Revelou que tinha verdadeira admiração por médicos que lembrava pelo nome completo, mesmo décadas após as histórias que ilustravam esses personagens que são os colegas de trabalho.

Muitas histórias de um lugar onde passou toda a vida profissional, que a faziam parar e manter o olhar distante (creio que fazendo uma varredura de cada pessoa que participou dos eventos, mas isto ficava só na lembrança dela, uma espécie de compartimento secreto que gerava suspiro). Após a aposentadoria (também suponho que não seja algo exclusivo), lamentou que pessoas de convívio diário não a procuraram, tinha grande mágoa por isso, ainda assim não nutria ódio, mas tristeza pura, simples.

Com economias que guardava em casa, não sabia muito bem como funcionava esse negócio de conta bancária, bem como um empréstimo de uma freira (a quem sempre foi muito grata) comprou um terreno onde a rua nem chegava, mas tinha uma bela vista, com o companheiro construiu uma casa de madeira e cercou o terreno. Pagou a dívida com muito orgulho e satisfação.

Criou os dois filhos, a quem ensinou que nada seria fácil, mas que o teto e a comida não lhes faltaria. Quando ganhava duas balas que fossem no trabalho, trazia para casa para dar ao filho e a filha.

Havia uma regra básica: tudo era dividido. Me pergunto se por caráter ou necessidade. Apostaria em ambos.

Escola pública para os filhos, com orgulho extremo a cada etapa acadêmica cumprida.

Seguiu-se uma vida simples, sem os luxos da vizinhança de bem nascidos que aglutinou-se em área residencial nobre. Era a casa mais modesta da rua, que evoluiu para uma construção de alvenaria, sempre pelas mãos dela e do companheiro que tornou-se pedreiro após aposentadoria precoce e forçada pela perícia médica.

Com grande obstinação comprou a primeira TV em cores, principalmente para assistir aos programas da Tupi e novelas (um verdadeiro vício). Mas, em meio às mansões adjacentes, quis o destino que um amigo do alheio invadisse a casa e lhe tomasse a TV. Na delegacia do bairro, alguns dias após ter sentido a tristeza da insegurança, encontrou a TV que lhe custou muito, entregou a nota fiscal para comprovar a propriedade, mas lhe negaram o direito ao bem, pois “não constava na nota fiscal, o número de série da TV” que ela teve certeza que lhe pertencia. Foi roubada pela segunda vez. Inconformada, comprou outra, menor, mais modesta, mas não aceitaria que fosse tolhido direito de assistir às novelas. TV aberta, imagem ruim, som horrível, antena interna, mas não perderia um capítulo que fosse.

Folheando as revistas da década de sessenta, já com as cores comprometidas, olhava para cada foto como se conversasse com ela mesma: um dia vou ver o show deste(a) artista!

Esta determinação a permitiu assistir espetáculos em casas de show da Grande Florianópolis por décadas. Coitado de quem a tentasse conter por conta da idade avançada. Com eventos iniciando por volta de meia-noite, estava na frente do local umas quatro horas antes para garantir o “melhor lugar” próximo do palco. Em shows gratuitos, que reuniam multidões, espremida, levava a amiga Celina, que dava a cobertura física necessária para evitar quedas. Este período após os sessenta anos de idade se seguiu até antes da pandemia. Já tinha ingresso comprado para eventos que iriam ocorrer em 2020, mas se frustrou muito ao perceber que a pandemia não daria folga.

Tornou-se uma verdadeira especialista em shows populares. Levava LP, CD e DVD do artista, conseguia acesso ao camarim, autógrafo, batia papo, fotos e ainda se tornava um símbolo da persistência, pois era uma fã sexagenária de bandas e artistas que tinham apelo entre adolescentes e adultos. Passou a ser colocada no palco em alguns shows, tornou-se “amiga” dos seguranças das casas de espetáculo, ganhava sempre um cantinho protegido próximo do palco, ainda que tivesse comprado ingresso para a turma que fica “lá atrás”. Acostumada a dar “bom dia para poste”, tinha o hábito de conversar com qualquer pessoa, não raro isso lhe trouxe a fama de “velhinha simpática”. Bastava que alguém a levasse e fosse buscar, a “encomenda” estava feita, não perdia um show.

Por outro lado, vinda de uma situação econômica restrita, não negava um prato de comida, uma sacola com frutas e verduras ou aqueles dois reais que estavam no fundo da carteira. Durante anos nutriu amizade pelo pessoal que gritava na frente da casa: D. Maria!

Foi avalista de praticamente todos os familiares, até os que tinham situação financeira melhor, mas não o entendimento sobre o que era o endividamento. Comprava tudo à vista. Se tivesse que parcelar, no máximo em cinco vezes. Assim foi conseguindo se manter e adquirir os bens modestos que a faziam se sentir “rica” em relação aos primeiros anos de vida.

Mesmo com as diferenças sociais claras, criou uma relação quase familiar com os primeiros vizinhos.

Tinha o hábito de não parar em casa, descia e subia o morro muitas vezes por dia após a aposentadoria, vendendo produtos da Natura, levava na casa dos “clientes” caminhando pelo bairro. Era comum ir de ônibus com esta finalidade para os que (mesmo tendo carro) moravam mais distantes. Fazia questão de entregar. Ganhou algumas homenagens e prêmios por desempenho, principalmente por uma campanha que não lhe dava lucro, mas tinha a promessa da verba revertida para instituições de “caridade” por conta da empresa. Aposentou-se do ofício após uma cirurgia no fêmur que lhe trouxe um pouco de qualidade e vida, passando a ficar mais em casa. Mas isto não significou que ficaria sentada em frente à TV, pois acordava muito cedo, olhava para o céu e agradecia pelo tempo bom para lavar as roupas, pegar as acerolas, carambola, figo e uvas. Depois ia “cuidar dos bichos”, que eram gatos e cachorros abandonados em frente da casa e que ela adotava com a maior facilidade (Lassie, Vanuza, Chimbica, Mimosa, Pretinha, Macaco, Pituxa, Pitoca, Totó e Menino moraram ali). O horário da novela era sagrado. Depois os programas da Inezita Barroso e da Hebe. Domingo era Gugu e Sílvio Santos.

Adorava viajar, nem que fosse para ir ali em Antônio Carlos.

De tudo que poderia ser atribuído à ela, o mais importante era a capacidade de semear amor.

O artistas eram “lindos”, gritando “te amo” na beira do palco.

Os filhos eram os mais importantes, os biológicos e os adotados (filhos do companheiro). Alguns a tratavam como a mãe verdadeira. Os sobrinhos e netos sabiam que em muitos natais teriam presentes que ela comprava na “cidade” e depois fazia o filho levá-la para cada casa dos parentes.

Ajudou todos que a procuraram, difícil para ela era dizer não. Sofria muito se não conseguisse ajudar, mas dava sempre um jeito de aliviar o problema. Fazia isso com rara discrição, mas necessária para preservar a imagem de quem estava enrascado.

Com um jeito muito simples, queria que todos estivessem bem.

Com problemas auditivos, raramente ouvia o toque do telefone fixo (celular nem pensar), mas agradecia todos os dias conseguir ouvir os sabiás, bem-te-vis, canarinhos e ficava muito tempo olhando onde faziam ninhos, bem como adorava deixar o pote com a banana para agradá-los. Pagava em bananas o “cantar” dos passarinhos livres que habitavam o terreno que ela preparou para eles. Chorava sempre que uma rolinha dava mole para a nossa gata, a Menina, pois não achava justo se tinha a ração.

Fez da existência biológica um eterno semear, ao fim da vida percebemos o quanto foi admirada e, principalmente, amada, não por ser famosa ou rica, mas por ser humana, despojada de bens materiais e feliz com o que tinha conquistado. Satisfeita com o caminho trilhado e sonhando em chegar aos cem.

Agora ela existe nos filhos e netos, o que fez de verdade e muito bem será o legado que esses receberam, não bens materiais, mas as lições de nunca negar água e pão para quem a procurava.

Vou sentir falta demais das vezes em que dava um gemido gentil por alguma comida que nem sempre ficava boa, mas ela comia com gosto e fazia questão de elogiar, do “café de shopping” que ela me pedia com os olhos para fazer na cafeteira expressa, com leite vaporizado que comia de colher.

Me sinto privilegiado pela segunda oportunidade de ter uma mãe por perto, no sentido mais amplo possível.

Que vida sofrida, magnífica e significativa teve a simples Dona Maria.

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